Gênio existe em concurso público?

A inteligência por muito tempo foi considerada como algo tão importante para o sucesso profissional que parecia uma maldição alguém não ser avaliado como inteligente nos famosos testes de QI. Para o mundo dos concursos não é diferente.

Nas poucas vezes que fui aprovado em um certame escutei essa afirmação de alguém: você deve ser muito inteligente. Isso sempre me incomodou um pouco, não por ser ingrato ao elogio, mas ao tempo em que isso lhe agrada, parece que desmerece todo o esforço empenhado para aquela conquista. Parece que tirava de mim aquela pequena vitória e era entregue a providencia da inteligência. De certo modo é isso que muitos pensam: Se não for inteligente, nada adianta o empenho, a dedicação, o querer e a vontade. Ou de outro modo: só passou porque é inteligente.

Infelizmente a importância dada ao fator inteligência ainda é enorme, na escola o professor sempre “baba” aquele com melhores notas, seus pais muito provavelmente já elogiaram o filho do vizinho por se destacar nos estudos (ou será que você é o vizinho elogiado?), até você mesmo já se pegou admirando alguém por ser capaz de lidar com contas complexas. Mas felizmente o cenário que destaca a soberania da inteligência muda lentamente.

Começou a mudar com a publicação do badalado livro “Inteligência Emocional” do Daniel Goleman, há 17 anos, estremecendo o mundo acadêmico ao abordar o tema e elevando-o ao mesmo status do conceito tradicional de inteligência. Ao ler o livro você poderá olhar para trás e verificar que aquele seu amigo que só tirava 10 nas provas, talvez não esteja tão bem como você. Isso com certeza traz algum conforto.

Saber que sua capacidade de relacionamento ou sua forma de lidar com conflitos também influenciam em suas conquistas é reconfortante. Nesse sentido o concurseiro já é um campeão, tem a todo instante provada sua capacidade de suportar pressões, da autorização do concurso à nomeação no cargo.

Muitos, no entanto, perdem boas oportunidades de aprovação por não terem melhores informações sobre os aspectos positivos da Inteligência Emocional. Mas é a visão da Inteligência pelo ângulo das emoções apenas mais um modo de se perceber o que determina ou influencia o sucesso na vida ou nos concursos, o próprio Daniel Goleman já afirmou que:

“Pesquisadores concluíram que o Quociente Intelectual (QI), uma medida de habilidade de raciocínio, é responsável por algo entre 10% e 20% do sucesso profissional. Isso significa que os outros 80% são influenciados por diversos fatores, como o tipo de formação, o apoio da família e até a sorte. A inteligência emocional está nesse bolo também. Mas como as pessoas precisam acreditar em maravilhas, apegam-se a isso. (…) Ninguém vai longe única e exclusivamente por causa da inteligência emocional. Nunca disse isso.”

Portanto, dizer que as emoções, ou melhor, a administração das emoções podem nos conduzir com maior facilidade pelas dificuldades na vida é uma grande verdade, para comprovar isso existem várias pesquisas. Mas devemos nos ater também a outros aspectos.

O que muitos teóricos afirmam contribuir fortemente para o alcance de nossos objetivos pessoais é a chamada Vontade. Em um vídeo excelente (esta disponível no youtube) o professor e antropólogo Luis Marins faz essa comparação entre a Inteligência e a Vontade. Ele nos lembra da famosa frase dos pré-socráticos: A inteligência é um farol que guia o caminho, mas não nos faz caminhar. Ela é capaz de nos dizer o melhor caminho a seguir, aonde ir, mas em momento algum é responsável por dar os primeiros passos. O nome do que nos move, nos faz trilhar um caminho escolhido é Vontade.

A inteligência não é livre, é determinada geneticamente. A Vontade, ao contrário, pode ser aperfeiçoada sem muitos limites, nos permite alcançar o que somente pela inteligência talvez não fosse possível. Um grande amigo que considero bastante inteligente por passar em vários concursos sempre me dizia: Não me considero inteligente, mas teimoso. Outra maneira de dizer: Tenho uma grande Vontade de passar nos concursos que presto.

No clássico de Maquiavel, O Príncipe, o autor contribui com essa visão de que a Vontade fornece grandes vantagens para o alcance de nossos objetivos. Ao tratar da deusa pagã Virtú (entendida no contexto renascentista em que foi escrito o livro) Maquiavel a mostra como “ A qualidade do homem que o capacita a realizar grandes obras e feitos”, diz ainda que ela “é a motivação interior, a força de vontade que induz os homens”.

Portanto meus amigos, o maior atributo que podemos nos orgulhar que possuímos não é a inteligência, mas sim a Vontade, será esta que lhe fará levantar todos os dias em busca dos seus sonhos e lhe abrirá as portas para a sua aprovação.

Por fim, lembro-me da história, quase folclórica, da senhora que ao final da apresentação do famoso violonista vai ao camarim do artista e tece grandes elogios ao violino, dizendo nunca ter visto instrumento tão imponente e primoroso, ao que o instrumentista respondeu: na próxima vez deixo o violino se apresentar sozinho. Fica claro que a inteligência é uma ferramenta importantíssima, mas não faz nada sozinha.

Artigo escrito por Roniere Miranda

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